"Beartown" | Review
Há autores que têm uma capacidade inacreditável de nos fazer acreditar nas suas palavras por completo, de nos fazer mergulhar nos mundos que criam, de sentir tudo aquilo que as suas personagens sentem e de nos fazerem rir e chorar quase em simultâneo. Para mim, o Fredrik Backman é um desses autores. Em Um Homem Chamado Ove conquistou-me o coração, fazendo-me rir e chorar e ter vontade de abraçar o Ove, e em Gente Ansiosa fez com que eu me conseguisse identificar em algum momento com quase todas as personagens e fez-me sentir pena de um "bandido". Há qualquer coisa de especial e mágico na sua escrita e nos livros que cria, por isso é daqueles autores de quem eu quero ler todos os livros.
Eu parti logo do princípio que iria gostar muito de Beartown, mas não estava à espera da onda de emoções que este livro me traria. Nesta história, chegamos a Björnstad - a Cidade do Urso, uma cidade que as pessoas dizem estar acabada. A pequena localidade fica escondida na profundeza das florestas e tem vindo progressivamente a perder terreno para as árvores densas, sempre invasoras. Contudo, junto ao lago existe um velho rinque de hóquei, construído há gerações pelos trabalhadores que fundaram a cidade. E esse rinque é o motivo pelo qual as pessoas acreditam que o dia de amanhã será melhor que o de hoje. A equipa de júniores de hóquei no gelo está prestes a competir nas meias-finais nacionais e tem realmente hipóteses de vencer. Todas as esperanças e sonhos dos habitantes da cidade recaem agora sobre os ombros de uma mão-cheia de rapazes adolescentes. No entanto, ser o responsável pelas ambições de uma cidade inteira é um fardo pesado e o jogo das meias-finais torna-se o catalisador de um ato violento, que traumatizará uma rapariga e deixará Björnstad em pé de guerra. São feitas acusações que, como uma pedrada no charco, percorrem a cidade e afetam todos.
Uma coisa que eu adorei neste livro foi como, desde o início, conseguimos sentir que Björnstad é uma cidade fria - não só no sentido lato da palavra, mas na forma de ser dos seus habitantes. É uma cidade que vive dos silêncios, das coisas que ficam por dizer, em que tudo e todos giram à volta da equipa de hóquei e, quem não o faz, acaba por ser apagado pelo frio do rinque.
Desde o início do livro que eu percebi que alguma coisa de má iria acontecer e pintei inúmeros cenários possíveis ao longo das páginas, mas nada me preparou para o que realmente aconteceu. Foi daqueles momentos em que eu tive de parar de ler para assimilar o que acabara de ler. E daí em diante o livro foi ainda mais incrível de ler - contudo, duro. Há inúmeras questões pertinentes que são levantadas e que podemos transpor para a sociedade em que vivemos, eventualmente até para situações que conhecemos da vida real. Faz-nos refletir sobre o poder dos homens, sobre a pressão dos grupos e o peso que isso tem nas pessoas. Quanto daquilo que fazemos ou não fazemos é para agradar aos grupos em que nos inserimos? Quantas vezes nos rimos de uma piada de que nem gostámos só porque todos à nossa volta se riram também? Quanto escondemos das pessoas pelo medo que sentimos do seu julgamento? No fim de contas, percebemos que a Cidade do Urso é uma cidade de oprimidos. A maioria das pessoas não diz o que sente, esconde coisas, vive com medo do que os outros à sua volta pensam. E quem tem a audácia de falar e de ser ele próprio, pode acabar em maus lençóis.
Eu gostei mesmo muito deste livro, mexeu muito comigo e fez-me pensar em muitas coisas. É um dos favoritos de 2025, sem sombra de dúvidas. O final deixou-me feliz porque acho que foi perfeito, exatamente o que tinha de ser. O talento do Fredrik Backman é inegável e agora estou muito curiosa para ler os dois livros seguintes da série.



Nunca li o autor, não tenho curiosidade com o do Ove mas esta trilogia já anda no meu radar há demasiado tempo. Espero finalmente pegar no Beartown em 2026 :)
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